Tremores? Nem sempre é Parkinson. Entenda as Diferenças

Por danilloleite • 17 de janeiro de 2026

Por danilloleite • 17 de janeiro de 2026
Ao longo das minhas décadas de prática clínica em neurologia aqui no Brasil, perdi a conta de quantas vezes recebi pacientes e famílias angustiadas, já com um “autodiagnóstico” de Doença de Parkinson baseado em pesquisas rápidas na internet ou na observação leiga de um tremor.
É compreensível. A Doença de Parkinson é a segunda condição neurodegenerativa mais comum no mundo, e seus sintomas clássicos são muito difundidos. No entanto, a neurologia é uma área de nuances finas. Nem tudo que treme é Parkinson.
O ponto de partida crucial é entender o conceito de Parkinsonismo. Parkinsonismo não é uma doença em si, mas uma síndrome, um conjunto de sintomas motores que inclui: tremor de repouso, bradicinesia (lentidão de movimentos), rigidez muscular e instabilidade postural [1].
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A Doença de Parkinson é a causa mais comum de parkinsonismo, representando cerca de 70% dos casos. Mas e os outros 30%? É aí que reside o perigo do diagnóstico errado. Existem outras condições, algumas benignas e outras mais agressivas, que se manifestam como uma doença parecida com Parkinson. Diferenciá-las não é apenas um preciosismo acadêmico; é fundamental para definir o tratamento adequado e preparar o paciente e sua família para o futuro.
Se eu tivesse que eleger a condição que mais gera confusão no consultório, seria o Tremor Essencial. É a desordem de movimento mais comum que existe, muito mais frequente que o próprio Parkinson.
A principal diferença, que um olhar treinado capta rapidamente, é o tipo de tremor. Na Doença de Parkinson, o tremor é predominantemente “de repouso”. Ele aparece quando a mão está parada no colo, por exemplo, e tende a diminuir quando o paciente executa uma ação.
No Tremor Essencial, ocorre o oposto. É um tremor de ação e postural. Ele aparece quando a pessoa tenta segurar uma xícara de café, escrever ou estender os braços. Frequentemente, o Tremor Essencial afeta os dois lados do corpo simetricamente desde o início e pode envolver a cabeça e a voz, algo menos comum nas fases iniciais do Parkinson [2].
Embora possa ser incômodo e afetar a qualidade de vida, o Tremor Essencial geralmente não vem acompanhado da lentidão e da rigidez típicas do Parkinson e tem uma progressão muito mais lenta.
Esta é uma situação que exige atenção redobrada, pois é potencialmente reversível. Muitos medicamentos amplamente utilizados podem bloquear os receptores de dopamina no cérebro, mimetizando perfeitamente os sintomas da Doença de Parkinson.
Como neurologista, a primeira coisa que faço é revisar a lista de medicamentos do paciente. Os culpados mais comuns incluem:
Antipsicóticos tradicionais: Usados para esquizofrenia ou transtornos graves de humor (ex: haloperidol, clorpromazina).
Medicamentos para náusea e vômito: Alguns procinéticos muito populares no Brasil (ex: metoclopramida).
Alguns bloqueadores de canal de cálcio: Usados para vertigem ou enxaqueca (ex: flunarizina, cinarizina).
O parkinsonismo induzido por drogas tende a ser simétrico (afeta os dois lados do corpo igualmente), enquanto a Doença de Parkinson geralmente começa de um lado só. O reconhecimento rápido é vital, pois a suspensão ou troca do medicamento causador, sob supervisão médica, pode reverter o quadro.
Aqui entramos em um terreno mais delicado da neurologia. Existem doenças neurodegenerativas que, no início, são quase indistinguíveis da Doença de Parkinson, mas que, com o tempo, revelam uma natureza diferente e, infelizmente, muitas vezes mais agressiva. São os chamados “Parkinsonismos Atípicos” ou síndromes “Parkinson-Plus”.
Essas doenças compartilham a lentidão e a rigidez, mas apresentam “sinais de alerta” (red flags) que nós, especialistas, buscamos ativamente. Elas tendem a progredir mais rapidamente e, crucialmente, respondem mal ou não respondem à levodopa, o principal medicamento para o Parkinson clássico.
A AMS é uma condição complexa. Além dos sintomas motores parecidos com o Parkinson, ela se caracteriza por uma falência precoce e grave do sistema nervoso autônomo. Isso se traduz em:
Quedas bruscas de pressão arterial ao levantar-se (hipotensão ortostática severa), causando desmaios.
Disfunção urinária importante (incontinência ou retenção) precocemente.
Disfunção erétil grave em homens.
Quando um paciente chega com rigidez, mas sua queixa principal são desmaios frequentes e problemas urinários graves logo no início do quadro, acende-se a luz de alerta para AMS [3].
A PSP é outra doença parecida com Parkinson que possui características marcantes. O paciente com PSP apresenta uma instabilidade postural muito precoce, resultando em quedas frequentes para trás, muitas vezes já no primeiro ano de doença.
O sinal clínico mais distinto, no entanto, está nos olhos. Há uma dificuldade progressiva em mover os olhos, especialmente na direção vertical (olhar para cima e para baixo). Isso causa dificuldades para ler, comer e descer escadas. Além disso, alterações cognitivas e de comportamento (impulsividade) podem surgir mais cedo do que no Parkinson clássico.
Para ajudar a visualizar as diferenças, preparei uma tabela comparativa. Lembre-se: isso é apenas um guia e não substitui a avaliação médica.
| Característica | Doença de Parkinson Típica | Tremor Essencial | Parkinsonismos Atípicos (ex: AMS, PSP) |
| Tipo de Tremor | Principalmente em repouso. | Principalmente em ação/postura. | Pode estar ausente ou ser misto. |
| Início dos Sintomas | Geralmente assimétrico (um lado). | Geralmente simétrico. | Frequentemente simétrico. |
| Resposta à Levodopa | Excelente e sustentada por anos. | Sem resposta (usa-se betabloqueadores, etc.). | Resposta pobre ou transitória. |
| Evolução | Lenta (anos/décadas). | Muito lenta. | Mais rápida que o Parkinson típico. |
| Sinais de Alerta | Raros no início. | Ausência de rigidez/lentidão. | Quedas precoces, falência autonômica grave, paralisia do olhar. |
A Demência com Corpos de Lewy é a segunda causa mais comum de demência neurodegenerativa após o Alzheimer, e possui uma relação estreita com o Parkinson. Na verdade, biologicamente, são doenças “irmãs”.
Na DCL, o paciente pode apresentar parkinsonismo (rigidez e lentidão), mas o que domina o quadro são as flutuações cognitivas (a pessoa tem momentos de lucidez e momentos de grande confusão no mesmo dia) e alucinações visuais muito vivas e detalhadas (ver pessoas ou animais que não estão lá) logo no início da doença. Se a demência aparece antes ou ao mesmo tempo que os sintomas motores, pensamos em DCL. Se os sintomas motores aparecem anos antes da demência, pensamos em Doença de Parkinson com demência.
O diagnóstico dessas condições é eminentemente clínico. Não existe, até hoje, um exame de sangue simples ou uma ressonância magnética padrão que diga “isto é Parkinson” ou “isto é PSP” com 100% de certeza na fase inicial.
O papel do neurologista especializado é atuar como um detetive. Precisamos de tempo para ouvir a história detalhada, entender a ordem de aparecimento dos sintomas e realizar um exame neurológico minucioso, testando reflexos, tônus muscular e padrões de movimento que a tecnologia ainda não substitui.
Exames de imagem avançados, como a Ressonância Magnética de alto campo ou o PET/SPECT cerebral (como o TRODAT-1, disponível no Brasil), podem ajudar a diferenciar um tremor essencial de um parkinsonismo degenerativo, mas a interpretação desses exames depende crucialmente do contexto clínico [4].
Diante de uma doença parecida com Parkinson, o acompanhamento contínuo é fundamental. Às vezes, o diagnóstico exato só se torna claro com a observação da evolução do paciente ao longo dos meses e da sua resposta aos medicamentos. O importante é não enfrentar essa jornada sozinho e contar com suporte médico qualificado.
1. Meu pai tem tremor nas mãos. Isso significa que ele tem Parkinson ou uma doença parecida?
Não necessariamente. O tremor é apenas um dos sintomas possíveis. A causa mais comum de tremor isolado nas mãos é o Tremor Essencial, que não é Parkinson. Apenas uma avaliação com um neurologista pode diferenciar os tipos de tremor.
2. Existe algum exame que confirma se é Parkinson ou um Parkinsonismo Atípico?
Na fase inicial, não existe um exame definitivo. O diagnóstico é baseado na história clínica e no exame físico. Exames como ressonância magnética ajudam a excluir outras causas (como AVCs ou tumores), e exames de medicina nuclear (SPECT/PET) podem mostrar se há perda de neurônios de dopamina, mas podem não diferenciar facilmente entre Parkinson típico e os atípicos no começo.
3. Se eu tomar o remédio para Parkinson (levodopa) e melhorar, isso confirma o diagnóstico?
Uma resposta excelente e sustentada à levodopa é um forte indicativo de Doença de Parkinson típica. Os parkinsonismos atípicos geralmente respondem pouco ou nada a esse medicamento. Portanto, a “prova terapêutica” com o medicamento é uma ferramenta diagnóstica importante.
4. Os parkinsonismos atípicos têm cura?
Infelizmente, assim como a Doença de Parkinson, os parkinsonismos atípicos (AMS, PSP, etc.) são doenças neurodegenerativas progressivas e ainda não possuem cura. O tratamento é focado no alívio dos sintomas e na melhoria da qualidade de vida, utilizando uma abordagem multidisciplinar com fisioterapia, fonoaudiologia e terapia ocupacional.
5. O parkinsonismo causado por remédios é permanente?
Na grande maioria dos casos, não. Se identificado precocemente e se a medicação causadora for suspensa (sempre sob orientação médica), os sintomas tendem a desaparecer ao longo de semanas ou meses. Em alguns casos raros, pode haver persistência dos sintomas.
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